A Tecnologia e a questão semântica

A Tecnologia e a questão semântica

Note
O texto começa como argumentativo e vai indo para o desabafo. 😉

Qual foi a última vez que você ouviu falar de uma inovação tecnológica? Alguma vez você ouviu alguém, ou algum veículo de comunicação, associar tecnologia a características negativas? Em nossa cultura, naturalmente a palavra tecnologia é associada a coisas boas, e temos a tendência a acreditar que qualquer nova tecnologia é um avanço, nunca um perigo ou uma ameaça.

Eu já cansei de contra-argumentar e tentar trazer as pessoas à reflexão sobre o tema tecnologia. Poucas são as pessoas que realmente refletem sobre tais coisas. É até difícil contra-argumentar, porque só de mencionar a palavra tecnologia você traz à mente da pessoa uma série de características positivas, para logo depois contrapor características negativas. Só de usar a palavra tecnologia, você já perdeu o interlocutor. Ele possui uma fé de que tecnologia é algo bom e sempre traz avanços.

Eu era meio cético em relação a essa luta. Até que, mês passado, eu li o livro "A terra dá, a terra quer", do Antônio Bispo dos Santos e ele me deixou com uma fixação pela questão semântica das coisas. Ele argumenta que a luta é no campo da semântica; trocando as palavras e trazendo novas interpretações aos adjetivos, podemos convencer as pessoas de nossas ideias.

Eu, por dominar a técnica de adestramento, logo percebi que, para enfrentar a sociedade colonialista, em alguns momentos "precisamos transformar as armas do inimigo em defesa", como dizia um dos meus grandes mestres de defesa. Então, para transformar a arte de denominar em uma arte de defesa, resolvemos denominar também.

Em outros escritos em que traduzi os saberes ancestrais da nossa geração avó da oralidade para a escrita, trouxemos algumas denominações que as pessoas na academia chamam de conceitos. A partir daí, seguimos na prática das denominações dos modos e das falas, para contrariar o colonialismo. É o que chamamos de guerra das denominações: o jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las.

Certa vez, fui questionado por um pesquisador de Cabo Verde: "Como podemos contracolonizar falando a língua do inimigo?". E respondi: "Vamos pegar as palavras do inimigo que estão potentes e vamos enfraquecê-las. E vamos pegar as nossas palavras que estão enfraquecidas e vamos potencializá-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer desenvolvimento, nós vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento é uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia é um vírus pandêmico e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa é envolvimento."

— Antônio Bispo dos Santos
semear palavras

A tecnologia sempre é boa?

Hoje, no ano de 2026, vivemos em um mundo que seria considerado totalmente artificial para alguém de dois séculos atrás. Antes de voltar ao Antônio Bispo, quero ir para outro pensador, esse mais voltado ao tema da tecnologia. Jacques Ellul, na introdução do seu livro The Technological Society, diz que o nosso mundo seria impossível sem a tecnologia/técnica. Há 200 ou 300 anos, era impossível que milhares de pessoas morassem em uma cidade; era impossível alimentar uma população tão grande; as casas eram menores (perdoem-no, pois ele viveu na Paris do século XX, não conheceu os microapartamentos que também são comuns em Paris) e nós tínhamos muito menos acesso a bens materiais.

Só por essa descrição você já deve ter imaginado que a vida melhorou e muito, certo? É relativo! O que o autor argumenta é que muitas vezes nós nos imaginamos em um mundo do qual não fazemos parte e que as pessoas que viviam nesse mundo tinham outro estilo de vida e outras preocupações. É bem provável que um homem medieval achasse desnecessária uma casa grande e confortável, porque ele passaria muito do seu tempo nas praças das cidades, enquanto hoje as praças praticamente inexistem e são sem vida.

Não sei se você captou a ideia. Mas muitas das tecnologias que temos hoje são para suprir uma necessidade que não existia antigamente. Outro exemplo que o mesmo Jacques Ellul traz em um documentário chamado The Betrayal by Technology são as cirurgias de transplante de coração. Hoje nós comemoramos que pessoas com alguma cardiopatia têm acesso à troca do seu coração por outro mais jovem e saudável, mas esse mesmo fato é uma contestação da falência da tecnologia, pois hoje muitas pessoas morrem em acidentes de trânsito com seus corações jovens e saudáveis. Eu não quero demonizar cirurgias cardíacas, muito pelo contrário; só quero apontar que nós aceitamos com naturalidade que pessoas jovens morram. Porque carros e motos são bons para nossa sociedade, são tecnologias, são avanços etc.

Hoje nós vivemos em um sistema civilizacional construído em cima da tecnologia. Nós ficamos felizes por conseguirmos comprar um vestido barato lá da China e achamos uma audácia alguém querer colocar uma taxa porque "o pobre não pode ter felicidade". Nós não conseguimos nem conceber a ideia de que, talvez, o motivo de sermos pobres esteja no fato de que os empregos migraram por causa da tecnologia, e o nosso lugar na sociedade foi transferido para outro país, e nos resta apenas lamentar. Mas ouso lembrar que tudo isso foi construído.

Por fim, a tecnologia, ou a técnica, não é um fim em si e não tem o poder de ser boa ou má. Ela é apenas uma ferramenta na mão de pessoas, construída com intenções e objetivos. Trazendo outro pensador à baila, Lewis Mumford define que uma ferramenta é um artefato tecnológico que aumenta a capacidade humana para desempenhar tarefas.

Ligando todos os pontos: a tecnologia não é boa nem má, nem um avanço nem um atraso. Tecnologia é só uma ferramenta nas mãos daquelas pessoas que a construíram, e essas pessoas têm intenções e as codificam na tecnologia. A tecnologia — e muito do avanço que tanto celebramos — foi usada para construir um mundo que nos coloca na periferia, em um local de mero consumo. Somos espectadores em um mundo construído por outros que nos designam um papel completamente secundário e que, se fosse possível, nos eliminariam da face da terra. (Teve até um bilionário que conversou sobre como "eliminar as pessoas pobres como um todo" com um notório abusador nos EUA.)

Mas aí retornamos a outro ponto: como nós convencemos as pessoas de que nem toda tecnologia é boa e de que devemos ser muito cautelosos na adoção delas?

É tudo uma questão semântica e de tradição

Eu ousaria dizer que é tudo uma questão semântica e de tradição. Creio que só de ouvir a palavra tradição algumas pessoas devem ter ficado com os olhos arregalados. E outros já estão pegando sua roupinha de cosplay de cruzado aí para proteger uma tradição que nos eliminaria na fogueira. Mas vamos com calma, porque vocês só acessaram seu arcabouço semântico sem muita reflexão.

Eu coloquei as duas palavras juntas de propósito. Tradição é algo que possui uma grande carga semântica na nossa cultura. Já pensamos na tradição católica; no caso estadunidense, há o tradicionalismo protestante ou evangélico (são duas tradições completamente diferentes) etc. Mas todas essas tradições são forjadas no nosso imaginário. Elas remetem a passados que não existem ou, se voltássemos realmente ao passado, as pessoas que defendem essa tradição seriam tradicionalmente queimadas em uma fogueira. Mas a tradição também é uma questão semântica: só de ouvirmos palavras que nos remetem a essa tradição, ativamos mecanismos de defesa ou até mesmo de ataque. Somos capazes de ignorar qualquer argumentação ao somente ouvir uma palavra, da mesma forma que somos capazes de concordar com algo de que discordávamos anteriormente se as palavras mudarem (leia A Mente Moralista).

Agora quero trazer mais uma informação à baila que pode fazer você reinterpretar o texto que já citei aqui. Volte lá em cima do post e releia a citação do Antônio Bispo pensando que ele está defendendo O MODO DE VIDA TRADICIONAL DO POVO QUILOMBOLA DO PIAUÍ. Eu não sei o que você pensou a princípio; se eu lesse esse texto independentemente, acharia que é alguma coisa revolucionária. Não parece? Lutar contra o imperialismo, revolução etc. E de certa forma o é, mas é outro tipo de revolução, e é a única que pode realmente parar as máquinas e reajustar a bússola que direciona o progresso. Aliás, ela é usada por alguns povos nada tradicionais.

Inclusive o livro tem alguns trechos complicados, principalmente quando fala de caça, mas se você ler até o final e atentamente verá que há uma racionalidade ali. Lembre-se: eu também sou piauiense e por isso afirmo que vi muita dessa racionalidade quando criança. É até difícil alguém sudestino e com a mentalidade do mundo consumista compreender.

A grande diferença entre o Antônio Bispo e as pessoas que vemos ao nosso redor é que ele era alguém que sabia exatamente a sua relação com o mundo e avaliava tudo que vinha de fora sob a ótica da proteção ao seu estilo de vida. Esse é um mecanismo que, naturalmente, nós humanos temos, e por isso esse papinho de tradicionalismos pega. Mas nós, como seres urbanos, somos filhos do progresso. A nossa tradição é que, a cada geração, o modo de vida mude radicalmente e todas as nossas seguranças sejam colocadas em segundo plano porque o progresso precisa chegar.

Progresso hoje é sinônimo de tecnologia. Foi o progresso que fez nossos antepassados perderem as terras e irem para as cidades. Foi o progresso que fez os bairros dos nossos avós deixarem de existir porque havia o carro e eles podiam morar cada vez mais longe. Foi o progresso que fez milhões migrarem para trabalhar em fábricas. É o progresso que faz todo o comércio ir para dentro dos shoppings e é o progresso que faz todo um mundo físico migrar para os marketplaces e redes sociais.

Nós somos seres perdidos esperando que nossa vida seja direcionada pelo próximo avanço tecnológico.

Mas há algo errado nessa equação. Quem nos protege desse "progresso" quando ele nos ameaça? Seria um tipo de tradicionalismo. Quero usar aqui como exemplo a indústria alimentícia. Em países como os EUA e o Brasil, ela foi capaz de mudar a culinária e a composição de alimentos básicos. Mas em outros países ela não conseguiu avançar nesse objetivo sórdido.

Em países como a Itália, você pega produtos na prateleira do supermercado e vê que a composição deles é compreensível até pela sua avó. Não há infinitos aditivos e, mesmo assim, a indústria tem lucro. E por que isso? Porque coletivamente os italianos construíram uma proteção cultural para essa indústria através da tradição. Você acha isso estranho? Nós também fazemos isso com comida, mas é muito limitado. Só procurar os vídeos de brasileiros reagindo à culinária estadunidense e você vai perceber o nojo que temos quando eles abrem uma lata de feijão. Aliás, é até difícil encontrar feijão em lata no Brasil.

522deed6 3f38 3090 82ad c8694363d243
Canal Lionfield no YouTube, onde dois italianos reagem a como pessoas de outros países fazem a "culinária italiana".

Agora é hora de largar a culinária e voltar ao nosso tema. Essa proteção é construída através da semântica e, por isso, precisamos treinar e estimular uma nova semântica ao pensarmos em tecnologia.

Por uma nova semântica

Quero lembrar aqui que isso não é uma defesa de nenhum tradicionalismo comum dos que vemos por aí. Inclusive, os tradicionalismos que existem hoje operam em questões que pouco influenciam a adoção de tecnologias; eles atuam de forma que nos engajemos mais em redes sociais. É bem provável que um tradicionalista que more perto de mim tenha um carro caríssimo que solte mais gás carbônico que 200 ovelhas, use chat-qualquer-coisa o dia inteiro e não saia do WhatsApp nem para interagir com a própria família.

Mas precisamos reconstruir formas de proteção que nos tragam de volta o controle das nossas vidas. Vamos pegar, por exemplo, uma das afirmações mais esdrúxulas do senhor Sam Altman. Algum tempo atrás ele afirmou que poderíamos nos relacionar com o ChatGPT da mesma forma que o protagonista do filme Her se relacionou com a IA do filme.

Se você não assistiu ao filme, é muito bom e eu o recomendo. Mas já quero avisar que o senhor Sam Altman entendeu tudo errado. O que ele está fazendo é tentar normalizar novas formas de relacionamento através da tecnologia que são tóxicas, e era essa a ideia do filme.

Alguns vão até pensar que pessoas se relacionando com IAs é um avanço. Até imagino uma psicóloga que vai sempre à GloboNews falando como isso é legal e "moderno". Ou consigo imaginar uma reportagem do Fantástico sobre japoneses namorando robôs etc. Ain…​ como tudo isso é moderno.

Não!!! Tudo isso é atraso!! Tudo isso é a degradação (desculpa usar essa palavra, sei do significado dela lá nos anos 1930) e dispersão social. Os artefatos tecnológicos foram feitos para nos separar, para nos tornarmos consumidores.

Vamos pegar outro exemplo: imagine um médico usando o ChatGPT para gravar a consulta do paciente e conseguir o diagnóstico em poucos minutos. Já viu alguma reportagem sobre o assunto? Ela provavelmente estava mostrando como a tecnologia ajuda o médico. Mas a verdade é bem mais sóbria. Isso é uma irresponsabilidade. Se o médico não sabe que o ChatAlgumaCoisa é ruim, ou se acreditou na propaganda, ele é burro. Mas o que está acontecendo é que ele está DELEGANDO SUA CAPACIDADE DE JULGAMENTO para uma ferramenta falha. Isso também não é um avanço tecnológico, é uma irresponsabilidade tecnológica. Qualquer pessoa em sã consciência repudiaria completamente essa atitude.

Eu queria mostrar aqui que, em muitos casos, somos expostos a uma semântica sempre positiva da tecnologia, nunca a uma semântica negativa.

E quem vai criar essa semântica? Quem vai começar a ser a voz dissonante na sociedade dizendo: TECNOLOGIA PODE FAZER MAL! TECNOLOGIA PODE SER ATRASO! TECNOLOGIA PODE SEPARAR E DISTANCIAR PESSOAS! TECNOLOGIA PODE EMBURRECER!!

Não é porque existe um método novo que é assistido por tecnologia que ele é melhor. Aliás, nestes últimos anos nós vimos o mundo da pedagogia se unir em UNANIMIDADE contra o uso de telas nas salas de educação infantil.

A gente precisa começar a cultivar essa semântica, normalizá-la. Mas é preciso também entender o que é que devemos proteger. Seria a vivência comunitária? Seria a vida desconectada? O hábito de leitura? Há muito o que proteger, mas essa resposta eu não quero dar.

Gostou do que leu? Comente aqui ou continue a conversa no Reddit.

Comentar aqui Discutir no Reddit